Curso Online de Planejamento e controle financeiro

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Este curso foi elaborado com a preocupação de levar ao leitor os princípios básicos de administração financeira e orçamentária, conteúdo que se torna obrigatório em uma economia cada vez mais dinâmica e sem fronteiras.

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Frente do certificado Frente
Verso do certificado Verso
  • Planejamento e controle financeiro

  • 1
    Funções financeiras da empresa
    Uma das principais características de um administrador é conhecer bem o funcionamento financeiro de uma empresa, independentemente da estrutura de mercado na qual ela esteja inseri- da: seja em um mercado competitivo, seja em uma concorrência monopolística, em um oligopólio ou em um monopólio. Os desafios de um administrador basicamente são os mesmos: levantar e alocar recursos para que a empresa possa desenvolver um produto ou prestar um serviço.
    Todavia, para que o administrador possa efetivamente levantar e alocar de maneira ade- quada esses recursos, faz-se necessário conhecer as principais especificidades da administração financeira. Isso ocorre na medida em que há, nas empresas (seja qual for o ramo de atividade), um desencontro entre o que ela espera receber de recursos oriundos de suas vendas e o paga- mento de suas obrigações, como salários, energia elétrica e despesas com vendas. Nesses termos, o objetivo deste capítulo é favorecer o conhecimento das bases que norteiam o planejamento e controle financeiro das empresas.

    1.1 O que é administração financeira?
    Quando pensamos na definição de administração financeira, há de se compreender antes o que são finanças. De acordo com Gitman (2010), entende-se por finanças uma série de princípios econômicos (sobretudo no que concerne ao estudo da microeconomia) e financeiros para maxi- mizar determinado resultado de valor em um período. Esse resultado, com efeito, é a riqueza que pode ser medida pelo lucro ou aumento do patrimônio de uma empresa.
    Ora, se finanças representam esses princípios, fica fácil entender o que vem a ser adminis- tração financeira. Em que pese diversos autores definirem essa expressão à sua própria vontade, todos reconhecem que, no fim das contas, a administração financeira nada mais é que a melhor utilização dos princípios microeconômicos e das ferramentas financeiras para obter o melhor re- sultado de um negócio.
    Da venda de revistas em uma banca de jornais em São Paulo até a produção de aviões Airbus em Toulouse, na França, os princípios de administração financeira são os mesmos. O que diferencia a venda de revistas da produção dos Airbus é a quantidade de informações levantada em cada negócio.
    Observe que ambos apresentam riscos e incertezas. E se as pessoas não comprarem as re- vistas? O mesmo pode ser dito: e se as empresas de transporte aéreo não comprarem os Airbus? Os dois negócios, além dos riscos, têm custos, despesas e enfrentam problemas externos por exemplo, as políticas econômicas do governo e as políticas internacionais (variação da taxa de câmbio). Nesses termos, podemos entender a incerteza como a ausência de informações sobre um investimento, e o risco como a probabilidade de esse investimento não oferecer os retornos espe- rados pelo agente financeiro ou investidor. Podemos ilustrar essa diferença: imagine que você vai

  • Planejamento e controle financeiro
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    trocar seu automóvel por uma caminhonete mais cara e de origem asiática, que é um lançamento da fábrica. Nesse caso, você não tem nenhuma informação adicional sobre o novo veículo, ape- nas a reputação do fabricante. Note que, nesse momento, poucas pessoas adquiriram esse veículo. Assim, você está em um ambiente de incertezas, pois não dispõe de informações que o ajudem a decidir melhor se compra ou não a caminhonete. No entanto, mesmo com pouquíssimas informa- ções, você deseja comprá-la. Quando você toma essa decisão, está correndo um risco resultado daquela incerteza inicial. O risco de o carro não ser tão potente, de falhar no primeiro arranque, de apresentar menor autonomia do que pretendiam seus idealizadores etc.
    Na verdade, a administração financeira lida a todo tempo com esses fatores (o risco e a in- certeza), o que pode ser vislumbrado no Gráfico 1.
    Gráfico 1 Risco e incerteza
    Relação de risco versus incerteza
    Risco
    Incerteza
    Fonte: Elaborado pelo autor.
    No gráfico, note que a ordenada representa o risco e a abscissa, a incerteza quanto a um ne- gócio qualquer. Observe que, quanto maior for a incerteza sobre o carro, sobre uma nova parceria com cliente ou fornecedor, ou ainda na aquisição de uma nova máquina, maior será o risco. Por isso, nesse gráfico há uma linha reta positivamente inclinada diante da origem. Assim, não é possí- vel falarmos em administração financeira como uma única administração quando, na verdade, ela permite que seus princípios sejam aplicados em qualquer negócio.
    Uma vez definida essa expressão, vejamos agora qual é o seu principal objetivo, sua meta e suas implicações.

    1.2 Meta da administração financeira
    Quando nos referimos à meta da administração financeira, pretendemos identificar os ca- minhos que ela percorre a fim de se manter no mercado. Para isso, além das estratégias usadas para fortalecer a empresa ao longo do tempo, todas as organizações comungam com seis princípios básicos que compõem suas metas: a maximização da riqueza; a perspectiva de longo prazo; o valor do dinheiro no tempo; o retorno do capital próprio; o risco compatível com o retorno e a política

  • Funções financeiras da empresa
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    de dividendos. Esses princípios são usados como guia independentemente do ramo de atividade e segmento de mercado da empresa.
    Maximização da riqueza
    Quando falamos em maximização da riqueza, pelo menos duas ideias surgem: a maxi- mização da riqueza da empresa e a de seus proprietários (acionistas). Independentemente de qual seja, o que existe por trás disso é o risco de se investir em um negócio no qual a incerteza é presença constante.
    Entende-se por incerteza o fato de não conhecermos ao certo se um determinado fenômeno vai se reproduzir. Segundo Casarotto Filho e Kopittke (2010, p. 308): “O fato de o futuro ser in- certo torna a tomada de decisão bem mais complexa, pois as pessoas parecem, no mínimo, temer a incerteza. A incerteza pode causar nervosismo, medo e até pânico. E as decisões tomadas nestas circunstâncias estão longe de serem lógicas ou racionais”.
    Por exemplo: se há uma vaga ideia de que no mês de maio chove mais na região sudeste do que na região sul do Brasil, não quer dizer que ao investir uma poupança na produção de laranjas no Sudeste vá incorrer no risco de perder dinheiro. Por outro lado, a poupança tem garantias acordadas pelo governo federal e população, o que leva a acreditar que o risco em aplicar o dinheiro na pou- pança será menor do que aplicar na produção de laranjas. Note que ao investir esses recursos, seja na poupança, seja na produção de laranjas, o objetivo é maximizar os resultados financeiros.
    Assim, a meta da administração financeira é a maximização da riqueza dos acionistas, que constitui algo mais amplo e profundo que a maximização dos lucros, tudo isso sob a condição de incertezas. Existe uma diferença entre a maximização da riqueza dos acionistas e a maximi- zação do lucro da empresa. Enquanto a primeira refere-se ao aumento do lucro e a quanto foi distribuído aos acionistas, a segunda diz respeito somente à distância entre a receita e os custos e despesas (quanto maior for essa distância, maior será o lucro) realizados no período. Em outras palavras, aumento de lucro na empresa não significa necessariamente aumento de riqueza para os proprietários. Como isso é possível? Imagine uma empresa que teve aumento nos lucros e não os redistribuiu aos acionistas, mas os alocou em seu patrimônio líquido para compra de máquinas e equipamentos. Certamente houve, nesse caso, aumento da riqueza da empresa, mas não aumento da riqueza dos acionistas.
    Nesses termos, segundo Braga (1992), a maximização da riqueza envolve cinco aspectos: perspectiva de longo prazo; valor do dinheiro no tempo; retorno do capital próprio; risco compa- tível com o retorno; e política de dividendos.
    Perspectiva de longo prazo
    Quando se pensa no horizonte de vida de uma empresa, faz-se necessário pensar em longo prazo. Ninguém acredita que vai retirar parte de seu salário com o intuito de abrir um negócio amanhã para ficar bilionário depois de amanhã. Nem Bill Gates conseguiu isso com a Microsoft, que levou certo tempo para a estruturação e o posicionamento no mercado.

  • Planejamento e controle financeiro
    14
    Nesses termos, a empresa deve ser perpetuada e, para tanto, tem de realizar investimentos em tecnologia, novos produtos, novas máquinas e equipamentos, treinamento constante da mão de obra etc. Isso implica sacrificar a rentabilidade atual em troca de benefícios futuros.
    Nesse primeiro aspecto, fica fácil perceber que a maximização da riqueza da empresa vem em primeiro lugar, depois é que vem ampliar a riqueza dos empresários. Podemos observar esse ponto de vista de acordo com o quadro a seguir.
    Quadro 1 Empresa versus empresário

    Balanço Patrimonial
    Ativo Circulante
    Passivo Circulante
    Realizável a longo prazo
    Passivo não Circulante
    Ativo Permanente
    Lucro distribuído aos acionistas
    Patrimônio Líquido Lucro
    Fonte: Elaborado pelo autor.
    No esquema é apresentada uma estrutura simples de Balanço Patrimonial. Na conta do Patrimônio Líquido, temos duas flechas saindo em direções opostas. Se o lucro for para o Ativo Permanente o que implica novas máquinas, equipamentos e expansão da fábrica estamos agin- do para priorizar a empresa. Por outro lado, se seguirmos a outra flecha, o lucro sai da empresa em direção aos acionistas. Isso revela que, embora seja necessária a distribuição do lucro, a prioridade sempre será a manutenção e o crescimento da empresa em detrimento dos acionistas. Em uma organização que vislumbra esse cenário, é mais desejável dividir esse lucro entre a manutenção e a expansão do negócio. É necessário, então, que o lucro beneficie ambas as partes, mas sempre com peso maior na atividade-fim.
    1.2.3 Valor do dinheiro no tempo
    Qualquer investimento sempre será constituído de fluxos de entrada e saída de caixa. O estudo da engenharia econômica revela várias ferramentas para avaliar projetos, transfor- mando os fluxos de caixa em valores atuais, valores futuros, séries uniformes de desembolsos ou séries uniformes de recebimentos tudo isso por meio da aplicação da conhecida taxa mínima de atratividade (TMA).
    O fluxo de caixa mais popular é o fluxo de caixa operacional por meio do qual obtemos a taxa interna de retorno e confrontamos com a taxa mínima de atratividade e o payback, conhecido como tempo de recuperação do investimento. A tabela a seguir mostra de que forma esse tipo de fluxo de caixa funciona.

  • Funções financeiras da empresa
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    Período
    Tabela 1 Fluxo de caixa operacional

    1 2 3
    4
    5
    6
    7
    8
    9
    Entradas
    Lucro
    R$ 2.000,00
    R$ 2.500,00
    R$ 3.200,00
    R$ 4.000,00
    R$ 4.100,00
    R$ 4.300,00
    R$ 5.200,00
    R$ 5.500,00
    R$ 6.000,00
    Depreciação
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    R$ 500,00
    Subtotal
    R$ 2.500,00
    R$ 3.000,00
    R$ 3.700,00
    R$ 4.500,00
    R$ 4.600,00
    R$ 4.800,00
    R$ 5.700,00
    R$ 6.000,00
    R$ 6.500,00
    Saídas
    Capital próprio
    R$ 10.000,00
    -
    -
    -
    -
    -
    -
    -
    -
    Amortização
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    Subtotal
    R$ 11.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    R$ 1.000,00
    Saldo de Caixa
    (R$ 8.500,00)
    R$ 2.000,00
    R$ 2.700,00
    R$ 3.500,00
    R$ 3.600,00
    R$ 3.800,00
    R$ 4.700,00
    R$ 5.000 ,00
    R$ 5.500,00
    Saldo acumulado
    (R$ 8.500,00) (R$ 6.500,00) (R$ 3.800,00) (R$ 300,00) R$ 3.300,00 R$ 7.100,00 R$ 11.800,00 R$ 16.800,00 R$ 22.300,00

    Fonte: Elaborada pelo autor.
    Considerando o fluxo de caixa, observamos quatro quadrantes. No primeiro, há as entradas
    que compreendem o lucro obtido no período (pode haver prejuízo também) e a depreciação, isto é, a parte recuperada do orçamento que surge como valor positivo. O segundo quadrante compreende as saídas representadas pelo capital próprio e pelas amortizações dos empréstimos a terceiros. O terceiro quadrante corresponde ao saldo de caixa, que é obtido pela diferença entre o subtotal das entradas e o subtotal das saídas. Nesse saldo, encontramos a taxa interna de retorno, trazendo esses valores a presente. O último quadrante representa o saldo acumulado conforme as setas indicam. Por exemplo: no ano 1, há um valor negativo de 8.500, ao qual somamos o valor do saldo de caixa do ano, que é de 2000. Logo, o saldo acumulado será de -8.500 + 2.000 = -6.500 e assim sucessivamente. Observe que o payback é o momento em que o saldo acumulado se torna positivo. Quer dizer, de acordo com nosso exemplo, no 5º período é quando ocorrerá a recupera- ção do investimento.
    1.2.4 Retorno do capital próprio
    Uma empresa é constituída por, basicamente, dois grandes tipos de capitais: o capital de terceiros (tomado junto aos bancos de fomento e que implica uma taxa de juros) e o capital próprio (no qual empresários aplicam fundos pessoais na empresa). Os acionistas esperam ser remunera- dos por meio de dividendos e, principalmente, pela valorização de suas ações. A administração financeira deverá atender a essas expectativas. Para que isso ocorra, é necessário que parte dos lucros seja distribuída, sacrificando, portanto, parte de futuras imobilizações, como a aquisição de máquinas e equipamentos.
    Essa distribuição é central para a administração financeira e seu planejamento. Se muito for distribuído para os acionistas, pouco sobrará para investir na empresa. Porém, se muito for aplica- do e pouco distribuído, os empresários se sentirão frustrados pela baixa distribuição. Assim, essa relação de lucro obtido e sua distribuição é inversamente proporcional, como podemos observar no gráfico a seguir.

  • Planejamento e controle financeiro
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    Gráfico 2 Lucro: distribuição versus aplicação.

    Acionistas
    Empresa
    Flecha 3
    Flecha 1
    Flecha 4
    Flecha 2

    Fonte: Elaborado pelo autor.
    De acordo com o gráfico, quanto mais se distribui os lucros, menos recursos serão alocados para fins de investimentos em máquinas, equipamentos e expansão do negócio. A recíproca tam- bém é verdadeira, pois quanto mais se investe na empresa, menos será distribuído. As flechas ex- ternas (1 e 2) apontam exatamente isto: em direção aos acionistas, menos recursos para a empresa; e as flechas internas (3 e 4) expõem: quanto mais dinheiro em direção à empresa, menos dinheiro para os acionistas.
    Risco compatível com o retorno
    Existe uma relação direta entre risco e retorno: quanto maior o risco assumido, maior será o retorno e vice-versa. Na medida em que existe relação direta entre esses fatores, para se aumentar o retorno dos investimentos, os riscos necessariamente serão aumentados. A administração financeira, por outro lado, nos fornece algumas ferramentas e técnicas para que exista certo equilíbrio nessa relação e, portanto, certa compatibilidade. Vejamos um exemplo: se aplicarmos um milhão de reais na poupança, o retorno será pequeno; portanto, o risco de perder essa importância financeira também será pequeno. Na mesma medida, se investirmos igual valor na produção de sacolas ecologicamente corretas, o retorno será maior, mas implicará maior risco. No entanto, como podemos saber que na produção de sacolas o retorno será maior assim como o risco? A administração financeira nos ensina que, por meio da taxa interna de retorno, tendo em vista uma taxa de investimento (no caso da poupança, por exemplo, menos de 12% a.a. e no caso das sacolas ultrapassa 16% a.a.), é possível avaliar esses investimentos e calcular riscos.
    Política de dividendos
    Uma empresa tem como parte de seus objetivos adotar uma política de dividendos. Independentemente das irregularidades de demanda (sazonalidade, ocasionando a queda nas vendas e, consequentemente, nos lucros), a empresa não deve frustrar os acionistas que esperam

  • Funções financeiras da empresa
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    receber dividendos periodicamente. Quanto mais a empresa mantém uma política de distribuição de dividendos, menos recursos serão empregados em benefício dela. Trata-se da mesma relação da distribuição de lucros em que, de um lado, temos os dividendos, e de outro, o investimento na ati- vidade da empresa. Encontrar o equilíbrio dessa relação é o segredo da administração financeira.

    Princípios financeiros básicos
    Para que os aspectos elencados anteriormente sejam cumpridos, há a necessidade de conhe- cermos dois princípios financeiros básicos: o emprego das informações contábeis e o conhecimen- to das áreas de decisões financeiras.
    O emprego das informações contábeis
    De acordo com Santos (2008), a administração financeira necessita das informações da con- tabilidade para bem realizar sua meta. É somente com base nos dados fornecidos pela contabilida- de que o administrador financeiro poderá:
    avaliar a situação econômico-financeira da empresa para julgar as decisões tomadas anteriormente;
    tomar novas decisões, a fim de corrigir o rumo indesejado;
    desenvolver planos operacionais e de investimentos.
    Em resumo, a análise dos dados contábeis (o Balanço Patrimonial e a Demonstração de Resultado do Exercício) orienta o processo decisório que constitui o aspecto central da gestão financeira.
    Áreas de decisões financeiras
    Pode-se identificar três áreas de decisões financeiras: as de investimento, as de financiamen- to e as relativas à destinação de lucro.
    A decisão de investimento em uma empresa passa, necessariamente, por dois estudos de or- dem econômica: a macroeconomia e a microeconomia. Enquanto a macroeconomia nos fornece as bases para compreender de que forma as políticas econômicas e as relações externas do país com o resto do mundo podem afetar o comportamento das empresas, a microeconomia nos fornece as bases para compreender a relação que existe entre a empresa em que estamos atuando e suas concorrentes em uma estrutura de mercado, além de sua relação com seus consumidores e fornecedores.
    Nesses termos, não basta a empresa estar tecnologicamente atualizada e com preços baixos, há a necessidade de estar constantemente atenta às mudanças de comportamento do consumidor, às mudanças de políticas fiscais, monetárias, de relações internacionais etc.
    Quando se fala em decisões de financiamento, a empresa deve indagar qual é a melhor com- posição de recursos a serem tomados. Muitos refletem sobre a composição ótima de recursos1, mas o que é ótimo para uma empresa pode não ser para outra.

    1 Ou seja, se a empresa irá alavancar mais capital de terceiros e menos capital próprio, mais capital próprio e menos endividamento de capital de terceiros ou até mesmo uma relação igual de capital próprio com capital de terceiros.

  • Planejamento e controle financeiro
    18
    Póvoa (2012, p. 256) discute o mito do endividamento:
    A teoria de estrutura de capital ótima baseia-se na hipótese de que, para todas as empresas e/ou indústrias, há uma proporção considerada ideal dentro do capital total entre recursos de terceiros e próprios. [...] À medida que a empresa se endivida, o mercado a percebe como mais “arriscada”, cobrando uma taxa de juros adicional (no jargão do mercado, um prêmio) nos empréstimos.
    Em outras palavras, normalmente o custo da dívida é, por definição, mais barato que o custo de capital próprio. Assim, para tomar essa decisão, é necessário levar em consideração as seguintes questões: qual é a proporção entre recursos fixos e variáveis? Quanto de recursos próprios e quanto de recursos de terceiros? No caso de recursos de terceiros, quanto de recursos de curto prazo e quanto de longo prazo? Deve a empresa lançar ações, debêntures e empréstimos? Qual é a reação do mercado no lançamento de novas ações? Qual é o impacto dos custos financeiros provocados pelos financiamentos a longo prazo e pelos empréstimos a curto prazo? Qual é a melhor forma de obter um ativo fixo (um terreno, por exemplo)? Comprar, alugar ou arrendar?
    Ainda, temos de considerar que o lucro obtido em cada exercício social representa a remu- neração do investimento dos proprietários da empresa. A grande questão é saber quanto desse montante deve ser distribuído aos acionistas e quanto deve ser retido para financiar a expansão dos negócios.
    Reflita: se apenas uma pequena parcela dos lucros for distribuída, a empresa ficará menos dependente do capital de terceiros e ampliará a participação do capital próprio na estrutura finan- ceira. O inverso é verdadeiro: se maior parte dos lucros for distribuída, haverá menor ampliação do capital próprio, fazendo com que a organização necessite de fontes de capital de terceiros, o que onera a empresa, pois essas fontes somente são obtidas com o pagamento de juros.
    Diante disso, uma política de dividendos adequada favorece a manutenção dos preços das ações em níveis elevados, o que pode garantir o sucesso de futuros lançamentos de novas ações no mercado.

    Levantamento e alocação de recursos: algumas implicações
    Cabe à administração financeira da empresa, de acordo com Wernke (2008), duas tarefas básicas: a obtenção dos recursos nas condições mais favoráveis possíveis e a alocação eficiente desses recursos na empresa.
    Levantamento de recursos
    As fontes de recursos à disposição de uma empresa podem ser classificadas em:
    recursos próprios (capital integralizado, reservas e lucros retidos);
    recursos de terceiros (compromissos assumidos e dívidas contraídas);
    recursos permanentes (recursos próprios e dívidas a longo prazo);
    recursos temporários (compromissos e dívidas de curto prazo);
    recursos onerosos (provocam despesas financeiras) e não onerosos (não provocam des- pesas financeiras).

  • Funções financeiras da empresa
    19
    Adequação entre formas e usos de recursos em termos de prazos e custos
    A adequação entre os recursos a serem levantados e seu uso está intimamente ligada a pra- zos de pagamentos e custos envolvidos. Há quatro situações gerais sobre essa adequação, são elas: compra de equipamentos; juros e encargos incidentes; recursos próprios; e alocação de recurso.
    No caso da compra de equipamentos, as técnicas de administração financeira ensinam que o valor investido em um determinado bem de uso (ou seja, investimentos cujo retorno se dará somente a longo prazo) deverá ser financiado com recursos permanentes, não com recursos provenientes de prazo de vencimento inferior. Por exemplo: se uma máquina requer investimento de cem mil reais e as receitas geradas somente a pagarão em cinco anos, a empresa deve procurar fontes de financia- mento com prazo superior a esse período. Esse tipo de análise é bastante superficial, mas faz sentido, pois, do contrário, a organização estaria liquidando a dívida antes de recuperar o investimento.
    De maneira resumida, no caso dos recursos que geram juros e encargos incidentes, podemos afirmar que a composição de capitais de uma empresa (sem entrar na questão de curto e longo prazo) é constituída por bens econômicos próprios e de terceiros. Enquanto o capital próprio não onera o resultado econômico pois não são revestidos de encargos financeiros (juros) , qualquer composição de capital de terceiros implica esses encargos. Isso faz com que, no fim, o resultado econômico seja reduzido. Além disso, quando se trata de tomar capital de terceiros junto às insti- tuições de fomento, que exigem garantias reais, há a redução da flexibilidade da gestão da empresa.
    Os recursos próprios, por sua vez, são aqueles que, em primeiro lugar, não oneram os resul- tados da empresa e, em segundo, representam que os acionistas esperam ser remunerados. Dito de maneira diferente: nenhum sócio ou mesmo um pequeno acionista aplicará seu dinheiro se ele não for revertido em lucro nas suas ações. Isso implica distribuir parte dos lucros pela empresa. Para que haja essa distribuição, eles devem, antes, ser reinvestidos.
    Outra tarefa básica da função financeira diz respeito à eficiente alocação de recursos. Ela envolve a constante busca da otimização no uso dos fundos para que seja alcançada a rentabilidade desejada e preservada a capacidade de a empresa pagar seus compromissos nos vencimentos acor- dados pelos fornecedores. Vejamos alguns exemplos que trazem vantagens e desvantagens.
    Estoques elevados de matéria-prima e de materiais auxiliares beneficiam as operações das áreas de suprimentos e de produção:
    Vantagens para a área de suprimentos ter maior prazo para pesquisar o mercado e negociar com os fornecedores; obter condições mais favoráveis por meio de compras em grandes quantidades; dispor de tempo suficiente para providenciar a substitui- ção junto ao fornecedor, caso ocorra rejeição pelo controle de qualidade.
    Vantagens para a área de produção eliminar o risco de interrupções no processo pro- dutivo devido à falta de materiais; dar maior flexibilidade na programação da produ- ção; em conjuntura inflacionária, os preços médios dos materiais estarão registrados por valores inferiores aos preços atuais de mercado, fazendo com que o custo médio de produção apurado pela contabilidade seja menor do que o custo de produção real.

  • Planejamento e controle financeiro
    20
    Desvantagens para a área financeira causar a falsa impressão de que a empresa está solvente em um determinado período, em razão de os estoques de matéria-prima es-
    tarem elevados. É importante lembrar que o índice de
    liquidez seca
    não considera os
    estoques para avaliar a liquidez da empresa. Em outros termos, em uma situação de recessão, em que os níveis de demanda caem, a empresa pode se ver com um estoque elevado de matéria-prima sem perspectiva de transformação em produto acabado e, portanto, em vendas, reduzindo o índice de liquidez.
    2. Estoques elevados de produtos em elaboração e produtos acabados oferecem vantagens para as áreas de produção e vendas:
    Vantagens para a área de produção otimizar o programa de produção, possibili- tando a redução efetiva de custos pelos ganhos de escala; possibilitar o atendimento de pedidos inesperados e urgentes; e fazer com que o custo médio calculado pela contabilidade seja inferior ao custo de reposição, diante dos constantes aumentos de preços provocados pela inflação.
    Vantagens para a área de vendas atender rapidamente aos clientes e oferecer preços competitivos quando forem calculados por meio do custo nominal médio dos produtos.
    Desvantagens para a área financeira elevar os custos na medida em que não há de- manda (no caso de uma situação de recessão, por exemplo), ocasionando o aumento dos estoques de produtos acabados e em processo.
    Prazos dilatados de faturamento facilitam o desempenho da área de vendas, fazendo com que os saldos das duplicatas a receber se elevem acima do desejável.
    Desvantagens para a área financeira implicar aumento do ciclo financeiro da em- presa, visto que há prazos muito longos para converter as duplicatas em dinheiro (caixa), o que pode ser nocivo, pois pode ampliar o hiato entre o pagamento das obrigações e o recebimento das vendas.
    Com base no que foi visto nesta seção, a Figura 1 a seguir expõe um resumo da função-base da empresa, a qual implica obtenção e alocação de recursos.
    Figura 1 Fluxos de fundos: uma visão geral do funcionamento das finanças da empresa.

    Empresa industrial

    Alocação de recursos

    Móveis, equipamentos, máquinas Caixa, bancos (sobra: MF*) Estoques
    Giro das operações Custos e despesas

    Levantamento de recursos
    Recursos próprios (Integralização do capital, lucro não distribuído) Recursos de terceiros (Financiamento de LP, títulos de dívida, debêntures, ações)
    Fontes espontâneas (Crédito com fornecedores, prazo para pagamento de salários e tributos)
    *MF: Mercado financeiro.
    Fonte: Elaborada pelo autor.
    Liquidez seca: capacidade de pagamento dos com- promissos de curto prazo com recursos de curto prazo. Note que aqui não se dis- cute nesse índice se
    os recursos de curto prazo apresentam conversão rápida.


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  • O ponto de equilíbrio: a análise custo-volume-lucro
  • Os indicadores econômicos e financeiros
  • Financiamento das atividades empresariais
  • Fusões e consolidações de empresas
  • Planejamento e controle financeiro